domingo, 3 de outubro de 2010

Queixa

Seria bem bonito se você viesse aqui. Se você aparecesse mais vezes.

Seria bem melhor não ficar tão solta nesses dias de chuva no fim da tarde.

De coisas sem sentido no inicio da noite.

De engarrafamento filho da puta na volta pra casa.

Quero dormir no teu corpo.

Escrever nas tuas costas e reclamar de qualquer coisa por chatice natural.

Quero ser de dois e ser de nenhum.

Leve, que leve.

Instante e continuação.

sábado, 22 de maio de 2010

Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo: Teadoro, Teodora.



É do Bandeira. Manoel. Manoel Bandeira.

terça-feira, 11 de maio de 2010

.

Quis tirar essas nossas fotografias que existe quando fecho os olhos juntos nos teus. Quero escrever mais algumas linhas e lembrar como eu dou risada de quando você tenta impedir que eu compre esses vinhos baratos. Quero ver tua cara chateada de quando falo aquelas mentiras e quando deixo aquele filme de sexo barato na TV; quando visto aquelas mesmas roupas por três dias e o quanto detestas essa minha falta de senso de higiene. Quero ver teu sorriso molenga, teu cabelo amarrado todo bem folgado, com qualquer roupa e tua voz macia falando “a gente”. Quero mais essas horas de insônia na tua voz sossegada feito criança.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

. Refazer

Na grande maioria das vezes é isso que existe no meu mundo:

. Estragar;
. Acordar;
. Desajeitar;
. Levantar;
. Pentear;
. Ir;

É irritante o fato d’eu nunca conseguir me expressar por inteira. E do quanto falo o que nem sempre era o que eu queria. Eu só queria ficar aqui, trancada nesse quarto, no frio constante das cinco da manhã. Parada, cansada, o corpo latejando de alguma dor nessa minha costa torta ou por eu me arranhar até ferir. Queria só ficar afundada nesses lençóis com cheirinho bom, como se tivesses sidos lavados há pouco. Sentir mais que ver, cor por cor, que essas cortinas daqui fazem no amanhecer. Queria ela Mar-ia (que de tanto - a- mar que tem, me dói) aqui, naquele soninho frouxo, pra eu falar baixo, pedindo perdão, enquanto dorme pra sempre. Enquanto a chuva não pára de cair lá fora. Enquanto tomo qualquer coisa de manhã, me despeço do quarto e vou descendo aquela escada que me deixa tonta. Enquanto pego a bicicleta e penso: preguiça que deu de ir viver hoje...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Bilhete

Por favor, eu não quero me apaixonar por esse teu tom de voz. Por essa ironia que tens ao falar no telefone. Por esse teu jeito sem dono, sem ser de ninguém.
Eu não quero!
Vou desligar o telefone e me trancar em qualquer lugar. Bem longe de toda essa vontade de te ter mais perto dos olhos.


- If anybody needs me I'll be crying in my closet. :/






. Odeio essa falta do que falar, do que escrever. Odeio esse muito do que sentir.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Pág. 41


Cansei desses meios termos, dessas meias palavras, dessa simples falta do que dizer ou de não dizer essas coisas pequenas que a gente sempre espera ouvir, mas não sabe também como mostrá-las de forma crua e exposta.

O pior quando se está aqui onde estou, parada, estacionada, sem ter como ou pra onde fugir.

Ou o caso seja um domingo, esse domingo que abro um livro na página 41 e começo a ler... O título faz pensar se seria possível aquilo, mas depois, vem a surpresa: é você escrita ali, sem mais nem menos.

“Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, à distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.”

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Retrato


Tudo que não faz mais parte d'eu.
Uma parte que nunca fui.
Alguém que não sou.
Algo que não perdi.
Beijos que nunca beijei.
Abraços que nunca abracei.
E essa coisa toda que eu fiz.

- Manda uma breja aí irmão!? Já não tô falando coisa com coisa... :~